Joaquim A. Rocha - Provavelmente, Auto-Retratos
26.5.12
23.5.12
Enquanto a meu lado dormes
Enquanto a meu lado dormes e, como de hábito, tens pesadelos
da minha boca sobe um balão de ar quente por onde fugimos os dois até ser claro
e a noite ser brincadeira de espuma na rebentação dos cabelos
O sono pérfido, nocturna suppressio, não te inquietará mais
do que a infinitesimal passagem do insecto pelo tempo
Guardiã dos espelhos das tuas mãos
conto-te coisas que minha mãe já ouviu contar
Damas pé-de-cabra e um ancinho aplanando as terras jardinadas
a vez em que me abriram uma cova e prestes a morrer
fui descalça correndo em tua direcção
ainda tu não existias
e o amor era um cavalo de muitas cores.
da minha boca sobe um balão de ar quente por onde fugimos os dois até ser claro
e a noite ser brincadeira de espuma na rebentação dos cabelos
O sono pérfido, nocturna suppressio, não te inquietará mais
do que a infinitesimal passagem do insecto pelo tempo
Guardiã dos espelhos das tuas mãos
conto-te coisas que minha mãe já ouviu contar
Damas pé-de-cabra e um ancinho aplanando as terras jardinadas
a vez em que me abriram uma cova e prestes a morrer
fui descalça correndo em tua direcção
ainda tu não existias
e o amor era um cavalo de muitas cores.
Já dizia o abade
O bom Vilaça, no entanto, dando estalinhos aos dedos, preparava uma observação. Não se podia de certo ter melhor prenda que montar a cavalo com as regras... Mas ele queria dizer se o Carlinhos já entrava com o seu Fedro, o seu Tito Liviosinho...
- Vilaça, Vilaça, advertiu o abade, de garfo no ar e um sorriso de santa malícia, não se deve falar em latim aqui ao nosso nobre amigo... Não admite, acha que é antigo... Ele, antigo é...
- Ora sirva-se desse fricassé, ande abade, disse Afonso, que eu sei que é o seu fraco, e deixe lá o latim...
O abade obedeceu com deleite; e escolhendo no molho rico os bons pedaços de ave, ia murmurando:
- Deve-se começar pelo latinzinho, deve-se começar por lá... É a base; é a basezinha!
Eça de Queirós
in Os Maias
22.5.12
Performance
Todo eu cintilei naquela noite, todo eu brilhei:
todo eu fui fogo-de-vista e fogo-de-artifício num só,
um foguete que se agitou e se lançou
à escuridão num chapéu-de-sol brilhante
num descante de pássaros pela imensidão;
fui a folia de bombinhas de carnaval estalando
até envolverem e coroarem a aurora;
eu fui fouéttes, faúlhas de uma obra-prima em flamas,
pára-chamas ponto-de-soldadura céu em nuvens,
farpas de ouro à solta a um passo do branco feroz,
para no fim deitar a língua de fora como os maori:
e como também nisso, fogo, fui certeiro!
Como de costume, depois de qualquer triunfo,
todo eu fui fogo-de-vista e fogo-de-artifício num só,
um foguete que se agitou e se lançou
à escuridão num chapéu-de-sol brilhante
num descante de pássaros pela imensidão;
fui a folia de bombinhas de carnaval estalando
até envolverem e coroarem a aurora;
eu fui fouéttes, faúlhas de uma obra-prima em flamas,
pára-chamas ponto-de-soldadura céu em nuvens,
farpas de ouro à solta a um passo do branco feroz,
para no fim deitar a língua de fora como os maori:
e como também nisso, fogo, fui certeiro!
Como de costume, depois de qualquer triunfo,
eu fiquei, claro, inconsolável.
Les Murray
In Subhuman Redneck Poems (1996)
(tradução, ou melhor, vcrsão minha)
(tradução, ou melhor, vcrsão minha)
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